terça-feira, 18 de abril de 2017

Através

minhas curvas
pelas quais escorrem as lágrimas
líricas e antigas
esqueceram como é percorrer
as linhas no tempo e as horas
e não mais encontraram as incoerências
esqueceram onde estavam as folhas
vivências percorridas
tocadas com as pontas dos dedos
preenchendo com notas as pautas, sem perceber
escorrendo gotas de sangue dos poros
e fechando os olhos para rever as janelas
nas tantas vidas que teve
procurando nas pilhas sobre a mesa
aquela última frase

domingo, 26 de março de 2017

Sufoco e morte

As folhas já não são mais preenchidas, os pensamentos insistem em não existir e uma simples frase não consegue ser formulada mentalmente. Olha-se para a janela e, através dela, para o vazio existente antes somente lá fora e agora também aqui dentro.

As canetas não saem mais do seu local de origem e, quando saem, tem de voltar rapidamente. Não há um caderno bagunçando essa ordem porque está sendo usado para rascunhar um texto como esse.

A palavra é a vida e sem ela me sufoco. A escrita foi a maneira de respirar na bolha física em que estive por tanto tempo. E quando finalmente foi possível não apenas olhar pela janela mas sair pela porta - com chave e tudo - acabo dias consecutivos aqui, sentada, olhando pela mesma janela. Mais incoerente, menos corajosa, mais confusa e perdida por não estar perdida o suficiente. Foram os textos lidos, a vontade de fazer e de mudar e a coragem para expressar, ao menos em textos imaturos, aquilo que fazia casa nos seus conturbados pensamentos.

O passado não foi perfeito. Nada é perfeito exceto alguns milésimos dentre todos os anos em que habitamos esse planeta. Apesar disso, só desejo sentir novamente aquela sensação no peito - não o aperto e a angústia - de liberar palavras ordenadas - ou não - em uma página em branco, ter um diálogo não orientado apenas pelo outro, derramar uma ou duas lágrimas e às oito da manhã do dia seguinte olhar para o nascer do sol e pensar: "Existem coisas que nos preenchem. Existem mundos dentro desse no qual vivo. E isso tudo ainda vale a pena. Posso fazer do meu jeito. Posso ser alguém apesar de tudo o que existiu, existe ou ainda pode existir ao meu redor."

quarta-feira, 8 de março de 2017

SER - sobre o oito de março

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Não porque ela menstrua todos os meses, acorda mais cedo para se maquiar e cuidar de si ou do filho, por andar com salto quinze ou por cuidar da casa, dos filhos e ainda ter uma carreira profissional - isso não é motivo de elogio se ela tiver com quem dividir essas tarefas, mas arcar com tudo sozinha.

Ser mulher vai muito além de ter características e comportamentos vistos como femininos. É além de ser carinhosa e sensível, isso todos nós, seja de qual sexo for, podemos ser. Ser mulher é ser uma pessoa como todas as outras. É ser capaz: de crescer, de conquistar, de lutar cada dia por algo que deseja, de cuidar de quem ama, de cultivar boas relações e suportar os problemas. Existem dores piores que uma cólica mensal. É ser dona de si  - o que cada pessoa é, seja ela do sexo masculino ou feminino. É ter a capacidade de decisão na sua vida, do corte de cabelo à escolha de ter ou não filho.

Ser mulher não é ser apenas o biológico. Somos evoluídos o suficiente para não viver em torno do nosso lado animal. Então, não é ter seios ou menstruar. Não é - somente - ter curvas. É SER. Ser como qualquer outro ser humano. 8 de março existe para se lembrar que as diferenças biológicas não são determinantes nas nossas relações, que somos mais que isso. Esse dia existe para nos lembrar que somos todas e todos capazes e, por isso, iguais. Hoje celebramos a busca pela igualdade. Não queremos ser superiores a ninguém, não queremos inverter a situação e dominar. Só queremos o que é justo: que sejamos vistas como todos os demais.

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Então, por favor, parem de comemorar esse dia nos parabenizando por coisas supérfluas como a maquiagem que usamos ou nosso ciclo menstrual. Não é por isso que esse dia existe. Ela pode não usar salto alto, pode ter um problema e não menstruar, pode não ser tão vaidosa. Mas é tão humana quanto todas as demais. É tão mulher quanta todas as demais. Somos mais que os rótulos que utilizam para nos definir.

Nós somos capazes. Sejamos nós as responsáveis por nós mesmas.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Fora do cobertor

Na chuva, ao redor da fogueira
Danço para o vento enquanto
Essas gotas me alagam
E me permitem transparecer, crua
Além de todo o encanto do fluir
Do som das gotas
Do cheiro de molhado
E deixam na pele
A sensação do esvoaçar ao se desfazer em movimento
Esse vento que envolve a mim em um abraço
Na direção do silêncio, agindo
Como uma manta
Mesmo na atmosfera das palavras encobertas
Pelos versos curtos
Ambíguos
Registrados na última folha, não lida
Até mesmo no prefácio pulado
Quando as gotas se foram, só passaram
E me deixaram aqui
No incerto abraço