domingo, 26 de março de 2017

Sufoco e morte

As folhas já não são mais preenchidas, os pensamentos insistem em não existir e uma simples frase não consegue ser formulada mentalmente. Olha-se para a janela e, através dela, para o vazio existente antes somente lá fora e agora também aqui dentro.

As canetas não saem mais do seu local de origem e, quando saem, tem de voltar rapidamente. Não há um caderno bagunçando essa ordem porque está sendo usado para rascunhar um texto como esse.

A palavra é a vida e sem ela me sufoco. A escrita foi a maneira de respirar na bolha física em que estive por tanto tempo. E quando finalmente foi possível não apenas olhar pela janela mas sair pela porta - com chave e tudo - acabo dias consecutivos aqui, sentada, olhando pela mesma janela. Mais incoerente, menos corajosa, mais confusa e perdida por não estar perdida o suficiente. Foram os textos lidos, a vontade de fazer e de mudar e a coragem para expressar, ao menos em textos imaturos, aquilo que fazia casa nos seus conturbados pensamentos.

O passado não foi perfeito. Nada é perfeito exceto alguns milésimos dentre todos os anos em que habitamos esse planeta. Apesar disso, só desejo sentir novamente aquela sensação no peito - não o aperto e a angústia - de liberar palavras ordenadas - ou não - em uma página em branco, ter um diálogo não orientado apenas pelo outro, derramar uma ou duas lágrimas e às seis da manhã do dia seguinte olhar para o nascer do sol e pensar: "Existem coisas que nos preenchem. Existem mundos dentro desse no qual vivo. E isso tudo ainda vale a pena. Posso fazer do meu jeito. Posso ser alguém apesar de tudo o que existiu, existe ou ainda pode existir ao meu redor."

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